Sempre resisti a aparecer em vídeos. Introspectiva na juventude, escolhi o curso de Comunicação por causa da escrita, não da imagem. Segui confortável nesta escolha até as redes sociais exigirem vídeos para divulgarmos o que escrevemos.
E mais um senão: aos 50+, minha imagem é a de alguém de 50+. Inadmissível nos dias atuais.

Como eu posso aparentar ter mais de 50, se tenho mais de 50?

E foi por não aceitar bem que 50 são 50, que quase desisti de publicar um vídeo sobre um podcast que apresentava, até então, via áudio. Se o objetivo foi usar a minha imagem para fixar o conteúdo, não deu certo, pois nem eu prestei atenção no que eu falei. Meus olhos só viam os parênteses ao redor da minha boca.
Passei a chamar os meus vincos de parênteses depois que a bela atriz Luana Piovani disse que tem “vírgulas” de estimação ao redor da boca. Se os sinais dela são vírgulas…

Como consolo, ao confessar o meu desapontamento a uma querida amiga, ela disse que eu estava sendo muito dura comigo, pois “estou envelhecendo muito bem”. Como ela é muito cuidadosa com as palavras e muito verdadeira, confiei em sua análise quando disse que um procedimento de mini lifting resolveria o meu incômodo na face.
Entendi que o limite do “muito bem” são os meus parênteses.

Isso é tão ruim assim?
Sim, é.
Gostaria de não tê-los.

Mas, por que somos tão críticas conosco mesmas?

Porque já habitamos noutras peles. E nossas referências são essas peles de 20, 30 anos.
Nossa comparação não é tanto com a pele das outras mulheres, mas com a nossa do passado.
Comparamos a fase atual com a de quando éramos elogiadas até quando saíamos de cabelo molhado e sem batom.
Mas já chega desta comparação. Não é justa e beira a crueldade. Decidi me libertar da mulher que fui e fazer as pazes com a mulher que sou.

Quem esperar reencontrar aquela de 20, só lamento, pois a de 50 tem outros sinais de pontuação, além dos parênteses.
O repertório adquirido com tantas vivências trouxe mais exclamações do que interrogações, mais reticências do que vírgula, mais pontos finais do que contínuos. Sinais que pontuam o belo presente de continuar viva.